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Arnaldo Nogueira Jr



Mauro Santayana

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?ltimo texto

Acerto com esp?lio

Mauro Santayana


Criado entre os seus irm?os de primeira classe, uma vez que filhos da mulher leg?tima, sendo ele nascido de ventre pardo e rasteiro, tratou de ser astuto. Chegara j? parrudinho ? casa nobre, e com algumas letras na capanga: gibis daquele tempo, com hist?rias do Capit?o Marvel e do Pr?ncipe Submarino e tamb?m a pequena cole??o de "Eu Sei Tudo", presentes do Juca Farmac?utico, poeta parnasiano, para a quem a m?e trabalhara como arrumadeira e balconista.

Entendeu logo que n?o adiantava, nos seus oito anos e meses, reagir contra a hostilidade, que, ali, tinha duas caras. Uma, era a da piedade justificada com ironia, "afinal o coitadinho n?o tem culpa de ser filho de rapariga", com que a madrasta explicava a sua aquiesc?ncia em receb?-lo, acrescentando que "no homem nada pega, ? direito dele buscar na rua a sem-vergonhice que n?o encontra em casa". A outra era a da rejei??o aberta dos meio-irm?os, sobretudo da mais velha, que tinha uma verruga feia na orelha direita e era chamada pela outra irm?, mais nova e tamb?m perversa, de Maria Brinquinho. Ele ag?entava tudo, e, no tudo, servir de criado, apanhar dos mais velhos e vestir e cal?ar o que os outros desdeixavam.

Quando, cinco anos depois, j? sabia montar, la?ar e fazer contas sem l?pis e sem papel, tirou duzentos mil-r?is do alforje onde o pai guardara o dinheiro de uns bois vendidos na v?spera e, duas e meia da manh? de noite de lua cheia, foi-se embora para o mundo.

? bom n?o ter para onde ir, porque, assim, a gente tem todo o lugar para ir, pensou. A m?e morrera uma semana depois que ele chegara ? casa do pai, mas s? ficou sabendo disso meses depois, quando Juca Farmac?utico, de passo pelo arraial, lhe contou. Quando o pai o buscou, ela j? estava no hospital da cidade, com um derrame prematuro, quase menina em seus vinte e quatro anos.

Agora retornava, rico, poderoso, para arbitrar a reparti??o da mis?ria. Com o pai se encontrara uma ?nica vez, e por acaso, quinze anos depois de sua fuga — e se registre a circunst?ncia — em bordel da rua Mariana, em Belo Horizonte, da qual ambos eram clientes eventuais e, o que ? pior, da mesma mulher, mulata empalidecida, de olhos grandes. Conhecido o jogo do acaso, n?o mais freq?entaram o estabelecimento. O pai, envelhecido e vi?vo, tentara dar-lhe alguma dignidade (ou, quem sabe, proteger os bens restantes), fazendo-o seu testamenteiro, uns seis ou sete anos antes de morrer de repente, ao desmontar, em frente ao f?rum de Ara?ua?. Os irm?os esparramavam pelas redondezas a decad?ncia. O que sobrava eram terras invend?veis, de t?o ruins, os m?veis antigos, o alambique seco e azinhavrado, um resto de tropa, velhos e aposentados bois de canga.

Reuniu os irm?os, que o receberam na sabujice dos canalhas, e sorriu vingan?a. Garimpeiro de seguidos bamb?rrios, mandara obturar, com platina e diamantes, a coroa de seus molares, que refletiam ? claridade de maio. Tirou da valise lembran?as para todos — rel?gios, canivetes, cortes de roupa. A Maria Brinquinho, engastalhada na solteirice, trazia presente especial: um par de brincos de pesadas ?guas-marinhas, de azul profundo, quase safira.

— O pai n?o deixou nada que prestasse, mas vou cuidar de voc?s. Afinal, estou devendo duzentos mil-r?is ao esp?lio — e quero pagar.


Mauro Santayana (1932), jornalista, ? colunista da Ag?ncia de Not?cias "Carta Maior", comentarista de TV e colaborador de diversos jornais nacionais, como "free lancer". Dois anos depois de voltar do ex?lio, em 1976, foi diretor da sucursal da "Folha de S. Paulo", em Minas, at? 1982, quando escrevia uma coluna di?ria de pol?tica. Foi exilado, em 1964, quando estava em miss?o diplom?tica no Paraguai, trabalhando com o embaixador M?rio Palm?rio. Nos dez anos de ex?lio, viveu no Uruguai, M?xico, Cuba. Em Praga, Tchecoslov?quia, 1968 – 1970, e em Bonn, Alemanha, 1970 – 1973, foi correspondente do "Jornal do Brasil". Foi chefe de reportagem do "Di?rio de Minas", 1955 – 1958, (BH), secret?rio de reda??o da "?ltima Hora", 1959, (RJ), comentarista econ?mico da "Revista Panorama Econ?mico Latino-Americano", 1965, Cuba, chefe das emiss?es em portugu?s da "R?dio Havana", 1966, comentarista pol?tico da "R?dio Praga", 1968 – 1970, e colaborador da "Gazeta Mercantil", 1982 - 1992 . Foi presidente do Bando de Desenvolvimento de Minas Geral, da ?rea Cultural. Em 1968, integrava a Comiss?o de Estudos Constitucionais do Minist?rio da Justi?a, que elaborava propostas para os constituintes de 1977. A amizade com Tancredo Neves e o trabalho feito pela reconquista da democracia garantiram-lhe uma condecora??o do governo mineiro, em cerim?nia  em Ouro Preto, no dia 21-04-2004..

Livros publicados: "Concilia??o e Transi??o: as armas de Tancredo", "Dossi? da guerra do Saara" e "Rep?rteres" (em conjunto)
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Texto extra?do da revista "Palavra", Editora da Palavra - Belo Horizonte (MG), ano 1, n? 7, Outubro de 1999, p?g. 124.

 

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